Biografia
Os Primeiros Anos
Rabi Menachem M. Schneerson foi o sétimo Rebe na linhagem dinástica de líderes do movimento Lubavitch, uma linhagem iniciada no século XVIII por Rabi Schneur da filosofia Chabad, o Tania, e do Shulchan Aruch, uma codificação da Lei Judaica.
Filho do Rabi Levi Yitzchak e da Rebetzin Chana Schneerson, o Rebe nasceu em Nikolaiev, na Rússia, em 11 de Nissan, 1902. Seu pai era um renomado estudioso do Talmud e da Cabalá; a mãe, uma mulher aristocrática, nascera em uma prestigiosa família de rabinos. Com cinco anos de idade, ele se mudou com a família para a cidade ucraniana de Yekatrinislav, atualmente Dnepropetrovsk, onde seu pai fora nomeado rabino-chefe.
Desde muito pequeno, o Rebe demonstrou uma capacidade de aprendizado e compreensão fora do comum, e logo foi obrigado a abandonar o Cheder pois estava muito a frente de seus colegas de classe. Seu pai contratou-lhe professores particulares e, posteriormente, encarregou-se ele próprio da educação do menino. Na época de seu Bar Mitsvá, o Rebe já era reconhecido como um Ilui, um prodígio da Torá, em cujo estudo ele mergulhou profundamente durante toda a adolescência.
Foi em 1923, em Rostov, na Rússia, que o jovem Menachem Mendel conheceu o então Rebe de Lubavitch, Rabi Yosef Yitzchak Schneersohn. Cinco anos depois, em dezembro de 1928, ele se casaria na Polônia, em Varsóvia, com a finada Rebetzin Chaya Moussia (1901-1988), a segunda filha do Rabi Yosef Yitzchak. A Rebetzin sempre será lembrada por sua excepcional erudição e intensa compaixão, expressas porém de maneira despretenciosa e simples.
Em seguida, o Rebe prosseguiu seus estudos seculares na Universidade de Berlim e na Sorbonne, em Paris. Nessa época, provavelmente, começou a florescer seu formidável conhecimento nos campos da matemática e das ciências.
Mudança para os Estados Unidos
No dia 28 de Sivan, 5701 — 23 de junho de 1941, uma segunda feira —, o Rebe e sua esposa desembarcaram nos Estados Unidos, após terem escapado por milagre da fúria nazista. Seu sogro, que se mudara para os Estados Unidos um ano antes, convidou-o então para dirigir as organizações que acabara de fundar: o Merkaz L'inyanei Chinuch, o braço educacional do movimento Lubavitch; a Machne Israel, seu serviço social; e a Kehot Publication Society, a editora do movimento.
Logo depois, o Rebe começou a escrever seus eruditos comentários a vários tratados cabalísticos e chassídicos, assim como uma ampla gama de responsa de Torá. Com a publicação dessas obras, seu gênio não demorou a ser reconhecido por eruditos de toda parte.
Liderança
Após o falecimento de Rabi Yosef Yitzchak Schneersohn, no dia 10 de Shevat, 1950, Rabi Menachem M. Schneerson assumiu a liderança do movimento em contínua ampliação.
Motivado por um profundo amor pelo povo judeu, o Rebe concebeu um programa inédito para levar o Judaísmo a todos os judeus, onde quer que vivessem. Inspirado pela determinação bíblica "E será a tua semente como o pó da terra, e te fortalecerás, ao Oeste, ao Leste, ao Norte e ao Sul" (Gênesis 28:14), o Rebe estabeleceu um corpo de Shluchim — emissários — e os encarregou de estabelecer centros Chabad-Lubavitch em todas as partes do mundo. Esses homens e mulheres dedicados refletem o compromisso do movimento Lubavitch com todo o povo judeu. Não surpreende, portanto, que, para muitas comunidades, o movimento Chabad-Lubavitch, com sua vasta gama de programas sociais e educacionais, seja o principal ponto de referência para todas Em seus anos como líder do movimento Chabad-Lubavitch, o Rebe transformou o chassídismo não apenas em um dos braços do Judaísmo, mas em seu próprio coração, no centro pulsante de sua vitalidade.
Muitas das inovações introduzidas pelo Rebe encontram-se tão profundamente entranhadas na vida judaica contemporânea que muitas vezes já não mais são identificadas como tendo surgido no movimento Lubavitch.
O Planeta como Objetivo
Ao longo de quatro décadas de inspirada liderança, a Rebe fez do movimento Lubavitch a maior organização judaica militante de todo o mundo.
Hoje, existem cerca de 2500 instituições Chabad em mais de 50 países distribuídos por seis continentes. Essas instituições sociais e educacionais cumprem uma variedade de funções para toda a comunidade judaica, independentemente de confissão ou formação. Na verdade, aqueles programas voltados para fins humanitários vão além até mesmo da comunidade judaica, beneficiando todas as pessoas.
Somente nos Estados Unidos encontram-se mais de 220 centros, instalados em todos os estados. E também existem instituições Lubavitch na África do Sul, Alemanha, Argentina, Armênia, Áustria, Belarus, Bélgica, Brasil, Bulgária, Canadá, Checoslovaquia, Chile, China, Colômbia, Congo, Costa Rica, Dinamarca, Escócia, Eslováquia, Espanha, Estónia, Franca, Geórgia, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Hong Kong, Hungria, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Latvia, Lituânia, Marrocos, Moldova, Nova Zelândia, Panamá, Paraguai, Peru, Romênia, Rússia, Singapura, Suécia, Suíça, Tailândia, Tunísia, Ucrânia, Usbequistão, Venezuela, Zaire. Essas instituições acompanham de perto o pulso da vida judaica em suas respectivas comunidades e contribuem para a manutenção de sua vitalidade e estabilidade espirituais.
Israel
Em Israel, os "chabadniks" são particularmente queridos por todos. Seus programas alcançam todos os setores da comunidade, e eles conquistaram o respeito da população inteira, independentemente de filiação.
Kfar Chabad, a cidade Lubavitch próxima de Tel Aviv, é a sede do movimento no país. Ali, um conjunto de instituições educacionais e organizações militantes tornaram-se uma referência vital para milhares e milhares de cidadãos israelenses.
Foram os moradores de Kfar Chabad os responsáveis pela organização da ponte aérea que retirou de Chernobyl centenas de crianças afetadas pelo desastre nuclear, levando-as para Israel a fim de que recebessem tratamento médico. Além do acompanhamento médico que lhes salvou a vida, essas crianças passaram a viver e a estudar na atmosfera calorosa e amigável de Kfar Chabad. E a ponte aérea continua em funcionamento, resgatando regularmente ainda outras crianças.
Tanto nos soldados servindo na frente quanto nos membros do kibutz, os sentimentos de veneração e respeito pelo Rebe são profundos, pois todos de algum modo se beneficiam de seu empenho e sua solicitude.
As Antigas Repúblicas Soviéticas
Lubavitch e, desde então, ao longo das gerações ele foi preservado na região graças à dedicação de seus Rebes.
Uma longa história de esforços clandestinos e heróicos do movimento Lubavitch manteve vivo o Judaísmo sob as circunstâncias mais opressivas que se possa imaginar, tanto antes quanto, sobretudo, após a Revolução bolchevique durante o regime comunista.
Agora, com a derrocada da União Soviética, o movimento Lubavitch saiu da clandestinidade e passou a realizar abertamente seu trabalho com ímpeto ainda maior.
O Rebe estabeleceu cerca de sessenta instituições para o ensino do Judaísmo nas repúblicas da antiga União Soviética e na Latvia. Centenas de emissários visitam essas, instituições regularmente e muitos outros passaram a residir nesses novos países a fim de promover atividades judaicas. Como resultado desse empenho, instituições judaicas sob a égide do movimento Lubavitch estão surgindo por toda parte na Comunidade de Estados Independentes e no Leste europeu.
O Povo do Livro
Sob a orientação do Rebe, a Kehot Publishing Society tornou-se a maior editora judaica de todo o mundo publicando e distribuindo milhões de livros, folhetos, boletins, fitas cassete e material educacional em hebraico, iídiche, inglês, francês, espanhol, italiano, russo, português, árabe, farsi, holandês, sueco e alemão.
A biblioteca e o arquivo centrais da Agudat Chassidei Chabad-Lubavitch, na sede mundial do movimento Lubavitch, abriga uma das mais preciosas coleções de obras e de literatura judaica em todo o mundo, incluindo até mesmo uma enorme quantidade de manuscritos e livros raros.
Revertendo a Tendência
Com freqüência ouviu-se o Rebe dizer que "não podemos descansar até que toda criança judia esteja recebendo uma educação judaica".
O sistema norte-americano de escolas judaicas, uma iniciativa pioneira do movimento Lubavitch na década de 1940, tornou letra morta, em quase toda parte, a concepção antes prevalecente de que a educação judaica não passava de algo secundário em relação à verdadeira necessidade de se ministrar uma educação secular às crianças. Desde então, as escolas judaicas tornaram-se aceitas e procuradas até mesmo por aqueles que antes se opunham a elas. Estas escolas, assim como os programas comunitários do movimento Chabad-Lubavitch, têm servido como uma referência que vem sendo cada vez mais seguida por outros.
Desde as Ieshivot para judeus de ambos os sexos com pouca ou nenhuma experiência no estudo da Torá até as, literalmente, dezenas de milhares de classes nos centros e sinagogas Chabad-Lubavitch ao redor do mundo — o Rebe foi a grande força vital por trás de um abrangente programa de revalorização da tradição que afetou todo o âmbito da vida judaica.
Suas abrangentes campanhas pelo cumprimento das Mitsvot e pela observação das Festas, assim como o inovador conceito dos veículos Mitsvá Móveis aumentaram a consciência em relação à vida e à prática judaicas entre milhões de judeus, estimulando-os a explorar e reavaliar sua identidade.
De Hong Kong a Tel Aviv, de Budapeste a Chicago, graças a um sem número de escolas, centros de jovens, instituições, organismos e atividades do movimento Lubavitch, todas estabelecidas e sustentadas pelos esforços do Rebe, incontáveis judeus encontraram o caminho de volta para sua verdadeira casa.
Preocupação por Todos
Conta-se uma história a respeito da infância do Rebe que parece quase simbólica de muito o que viria a ocorrer depois. Quando tinha nove anos de idade, Menachem Mendel mergulhou no mar Negro para salvar a vida de um outro menino que havia caído do convés de um navio atracado. A preocupação constante com outras vidas em perigo parece ter dominado sua consciência. Pessoas "se afogando" sem que ninguém estivesse ouvindo seus gritos de socorro; crianças privadas de uma formação genuinamente judaica; jovens judeus nas universidades; famílias vivendo em comunidades isoladas, sob regimes repressivos — todos necessitando de ajuda externa.
Por isso, o Rebe estimulou incessantemente todos aqueles a quem conhecia para que participassem da nobre tarefa de se dedicar aos outros, ajudando-os, educando-os e reunindo-os em torno do Judaísmo.
Erudição
O Rebe foi um pensador teórico e sistemático do mais elevado nível. Seu característico estilo de pensamento analítico resultou em uma monumental contribuição para a cultura judaica. Ao propor uma nova e brilhante abordagem para a compreensão do clássico comentário bíblico de Rashi, por exemplo, ele revolucionou o estudo da Bíblia.
Mais de duzentos volumes contendo suas palestras, escritos, correspondência e responsa foram publicados até hoje. Seus abrangentes conhecimentos em todas as esferas intelectuais, das ciências à medicina e à matemática, eram assombrosos. No entanto, a despeito de toda essa erudição, o Rebe sempre ensinou que o entendimento intelectual só é valido quando leva à ação e à busca do bem.
A série Igrot Kodesh, uma compilação cronológica da correspondência e das responsa do Rebe, encontra-se agora em processo de publicação. Recentemente foi lançado o volume 26, elevando assim o total de cartas publicadas a mais de 10 mil. Isto inclui o material que ele escreveu até 1965, e apenas aquilo que está em hebraico e iídiche. A igualmente prolífica correspondência do Rebe em inglês também está sendo preparada para publicação.
A extraordinária diversidade de tópicos tratados nessas cartas compreende todas as esferas de interesse e todos os campos da atividade humana. Seus comentários tratam desde o misticismo, o Talmud e a filosofia chassídica ate a ciência e os acontecimentos mundiais, além de proporcionarem orientação em questões pessoais e assuntos comunitários, sociais e pedagógicos.
Os textos incluídos na série Igrot Kodesh lançam alguma luz sobre o gênio do Rebe e sobre o enorme sucesso alcançado pelo movimento Lubavitch. Os correspondentes do Rebe são estudiosos rabínicos e estadistas, donas de casa e educadores, rabinos-chefes e jovens preparando-se para seu Bat ou Bar Mitsvá, cientistas e trabalhadores, líderes comunitários e pessoas comuns.
Trata-se de um verdadeiro tesouro de profundos ensinamentos chassídicos, cabalísticos, talmúdicos e rabínicos, irradiando encorajamento, inspiração e orientação, e refletindo a extraordinária compreensão que o Rebe possuía da psique humana.
É muito provável que sua fama como líder e inovador, responsável por amplos projetos comunitários e campanhas pelo cumprimento das Mitsvot tenha sido uma conseqüência de sua originalidade como pensador, e de sua habilidade para unir a teoria e a prática. Estas eram, para o Rebe, essencialmente duas facetas de um todo único — a abrangência de seu pensamento e de sua ação faziam parte do mesmo impulso levando à unidade da Torá, à união do povo judeu e de toda a humanidade no sentido de realizar o propósito final da criação.
Uma Fonte de Bênçãos
Em todos os domingos pela manhã, uma enorme multidão de homens, mulheres e crianças se reunia diante da sede mundial do movimento Lubavitch e pacientemente aguardavam sua vez de encontrar pessoalmente o Rebe e receber a sua bênção. A cada uma dessas pessoas o Rebe dava uma nota de um dólar, nova em folha, para que fossem destinadas à caridade.
Esse extraordinário costume atraiu pessoas de todas as condições sociais, muitas das quais viajavam milhares de quilômetros apenas para esse breve porém inesquecível encontro.
Uma Luz para as Nações
Atento às exigências de sua época, o Rebe voltou-se também para fora da comunidade judaica com uma mensagem universal para todos os povos do mundo.
O Rebe nunca deixou de clamar por uma maior consciência da importância crucial da educação para toda a humanidade. E ele sempre enfatizou que a finalidade da educação não é apenas transmitir informações para a criança, mas sobretudo desenvolver-lhe o caráter, juntamente com sua capacidade intelectual, ressaltando-se os valores éticos, espirituais e morais. Somente uma educação desse tipo é capaz de garantir a existência de uma nova geração empenhada no respeito aos direitos humanos fundamentais e às obrigações sociais.
O Rebe não se cansava de lembrar que o moderno homem secular tem uma permanente necessidade de pautar sua vida por valores morais e por uma filosofia religiosa. Com freqüência, ele falava da obrigação que todos os seres humanos têm de aceitar e viver em função dos "Sete Mandamentos Noachicos" — as regras universais de ética e moralidade — transmitidos a todos nós no Sinai. Isto, insistia o Rebe, é absolutamente necessário para que haja alguma sanidade e estabilidade neste mundo tão perplexo.
A aguda e brilhante percepção que o Rebe tinha da experiência humana e dos acontecimentos históricos, sua genuína compaixão pelo próximo, sua forte liderança e a profunda e incessante dádiva de seu gênio fizeram dele uma lenda viva, granjeando-lhe a admiração, o respeito e o assombro de todos aqueles que o conheceram.
Infelizmente, em 3 de Tamuz de 5754, a alma sagrada do Rebe retornou ao seu Criador após uma prolongada enfermidade. O mundo todo lamenta e chora a perda de seu insubstituível e ilustre líder e mentor. Estamos inconsoláveis.
Créditos:
Biografia: Conselhos e Orientações, Colel Torá Temimá do Brasil, 1995
Fotos: www.dorsai.org e www.shmais.com
Atualização: chabadmorumbi.org.br, 2002